Eu até gosto do senhor. É desempoeirado, tem gestos largos, é dos que metem as mãos nos bolsos, dá passadas largas, olha firme e até tira uma cigarrada. Nada do padreca melado e peganhento dos meus tempos de miúdo. Agora, isto do consabido (ainda por cima) «não é com manifestações que…» foi de cabo-de-esquadra. Grosso disparate, vindo da boca de quem promove, aceita e aproveita das mais multitudinárias manifestações que há neste país e que foram precisamente inauguradas, em Fátima, contra o poder político de então. Contra a República. Se eu, que toda a gente sabe que não sou religioso, lhe viesse dizer «não é com romarias que…», não lhe soava a despropositado?

Ainda um dia hei-de escrever umas poucas linhas sobre a Igreja Católica de hoje. Francamente, acho que em toda a sua história, em Portugal, nunca esteve tão bem servida de gente sensata, reflectida e conversável (seguramente com diversos e contraditórios horizontes políticos). Porventura na longa, conturbada – por vezes sinistra – presença do catolicismo em Portugal, terá havido expoentes mais brilhantes, alguns arrasadores, sob o ponto de vista intelectual. Todos percebem o que quero dizer, não vale a pena evocar grandes nomes pristinos. Mas talvez nunca tivesse coincidido um tal conjunto de boa gente, tão serena, preparada, reflectida e capaz de diálogo, como nos dias que correm. Aí incluo o sacerdote que acabo de descompor. Disse um tremendo disparate, agressivo e reaccionário, pronto. Passou. Faz um exame de consciência e há-de ter oportunidade de corrigir.

Às vezes (e aqui uma formação enviesada, infelizmente, ainda pesa…) o infame Syllabus continua a assombrar. E ainda não parece estar teologicamente resolvido o problema dos equívocos do Espírito Santo, quando, num instante malogrado da sua Eternidade (talvez o único…) deixou que fosse eleito, perorasse quando devia estar calado e se abstivesse quando devia ter agido, o papa Pio XII. Tenhamos a caridade de não mencionar tal Bispo de Roma. Rezem por ele os devotos. Mas, de acordo com os conhecidos pressupostos, não creio que as orações adreguem tirá-lo do sítio escarpado em que – suspeito eu – ele se encontra.

Mas isto veio a talhe de foice. Às vezes, convém lembrar. Memento! Mesmo que seja para me assegurar – sem qualquer ironia – de que estes actuais prelados e qualificados sacerdotes há muito rejeitaram o engulho de predecessores seus (apenas mencionei dois, numa contenção de fair-play) que não os ilustram.

E assim, Prezado Senhor Cardeal Patriarca, queira por favor abster-se de apreciações de café que não estão á altura da sua posição. Olhe que o direito de manifestação (que não enjeita para a sua Igreja) é um dos direitos fundamentais, que, juntamente com o de reunião e o de expressão, custou muito a conseguir.

Já agora, para minha tranquilidade e para assegurar o apaziguamento da minha alma céptica (e de muitas outras que, maioritariamente, são do seu credo) gostaria que um dia, quando tivesse oportunidade e tempo, se manifestasse em relação ao Sylabus, item a item. É que este comentário um bocadinho rancoroso contra o direito de manifestação, lançou em mim uma dúvida e sobressaltou entristecidas lembranças.

Afinal estarei eu equivocado, na apreciação benigna que tenho feito destes homens de Deus?

MdC (www.mariodecarvalho.com)

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