Pedro Fabião e a Ceguinha

Andei em arrumações de papelada e encontrei o recorte de uma reportagem que guardei do Fugas, muitíssimo bem escrita por Pedro Fabião. É o relato de um mês de férias no nordeste transmontano, tendo como companheira de viagem a burra “Ceguinha”. Depois de muito procurar na net, encontrei-a transcrita  e aqui deixo a hiperligação: http://www.aepga.pt/portal/PT/111/EID/14/DETID/3/default.aspx , para memória futura, pois tenho o projecto de férias é um dia tentar fazer algo semelhante.

Aqui fica um excerto:


“O que é que vende?”, pergunta uma mulher velhíssima, muito seca, de negro, como em toda a Europa ocidental apenas há neste país. Sem conseguir dissimular uma curiosidade transbordante, assiste a algo difícil de arrumar nas prateleiras do seu entendimento. A entrada, na aldeia, de um rapaz acompanhado de uma pequena cadela (uma aquisição imprevista) e de uma burra com duas alforjas bem carregadas, todos com o ar de quem já leva vários quilómetros nas pernas, confunde-a até à inquietação. “Nada, minha senhora. Eu só compro, ou então aceito o que me dão.”, respondo eu. “Ah, anda a pedir, ora anda?”, tenta ela, julgando ter decifrado a visão. “Também não. Ando só a dar um passeio com a burra…”. Quer saber de onde venho; falo-lhe por alto do meu percurso até à data – emite interjeições de admiração, mas o semblante mantém-se desconfiado. A estranheza da minha figura obstrui o entendimento mútuo. Os seus anos, que já viram muito, dizem-lhe que sou inverosímil.

No entanto, nos incontáveis encontros que fui tendo com aqueles com quem me cruzava, o mais comum é que o diálogo prosseguisse com as seguintes dúvidas: donde é que você é?, de quem é a burra?, e o que lhe dá de comer?, agora para onde é que vai?, onde é que dorme?, e não tem medo de andar para aí sozinho?, está a pagar alguma promessa?, é dos que gostam da natureza?, quer comer alguma coisa?, já provou o vinho aqui da terra? (geralmente é nesta altura que a hospitalidade se intensifica e dentro de pouco estou a tirar a barriga de misérias).

Desta vez, uma última tentativa trouxe esta anciã do fundo do campo até mim, para que os seus olhos se aproximassem daquilo que o sentido não podia. Olhou a guitarra e exclamou: “- Ah, é tocador! Anda a correr as romarias a tocar?”. Eu: “É isso mesmo! Ando a correr as romarias a tocar!”. Despedimo-nos, ambos satisfeitos.

Por onde andará este Pedro Fabião? Deixa esses relatadores de viagens  que agora pululam nos jornais com nomes de gente-bem a milhas.

Ah, a Ceguinha pertence à AEPGA – Associação para o Estudo e Protecção do Gado Asinino, que proporciona passeios do género. Consultar AQUI.

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