Depois de cinco anos a tirar férias quase totais do Porto, cá estou eu de volta ao Porto e ao teatro. A cidade do coração continua bela e em perigo, pouco muda. Por todo o lado se vêem lindíssimas casas fechadas à espera do bom senso dos vendedores e do bom gosto dos compradores. Até dá vontade de ser rico só para gastar o carcanhol todo a devolver vida a tais fachadas e aos jardins que elas escondem no meio da cidade.

Mas não foi para dizer do meu amor pelo Porto que aqui vim. Foi mais para anotar, para memória futura – não vá o alzheimer tecê-las, que no sábado fui ao São João (que corre o risco de voltar a ficar amarelo…) ver esta peça do Mestre Gil. Não ia com grandes expectativas: era uma coisa com “deus” no meio,  fora o Adão, a Eva, a Morte, o Tempo, São João e tal e coisa, o que, somado a uma linguagem certamente arcaica, me fazia temer pelo resultado da minha temeridade, isto já para não falar da minha experiência de muitas banhadas já apanhadas no São João. Mas lá fui eu, arrastando dois cachopos comigo que não sabiam ao que iam (desculpem, amores). Pouco imaginava o quanto viria a gostar desta encenação, simples, depurada, criativa. Gostei de tudo: do ritmo minuciosamente coreografado da encenação, da simplicidade do cenário, do elenco, da iluminação também ela aparentemente parcimoniosa, das adições de outros textos ao texto vicentino. Uma bela homenagem a Gil Vicente! Fiquei fã do Nuno Carinhas.

Nota final:  numa só noite havia três boas peças de teatro a merecer a atenção do público e uma delas, “O Avarento”, do Moliére, já estava esgotado! Parece que o Porto ganha nova vida cultural.

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