O Sr. Manuel Alegre bole-me cos nervos, coisa fácil de fazer, diga-se de passagem… Nos últimos anos, sempre que o homem diz alguma coisa para sair nos jornais fico estarrecida, sobretudo desde aquela de ele ter aceitado uma reforma pela RDP sem lá ter posto os coturnos nos últimos trinta anos, acumulando com o carcanhol de deputado e argumentando que era tudo legal… Como se nós não soubéssemos quantas coisas legais são imorais em Portugal. Mas não era disto que eu queria falar.

Hoje parece que o homem disse que criaria um partido para “dar uma lição aos outros”. Ora, eu pergunto-me, se o homem não está bem no PS (e tem-se fartado de o dizer, tanto que já ninguém acredita nele) por que raio não se põe a andar? Por que raio vota ao lado deles em quase todas as votações na Assembleia da República? Por que diabo aceita a disciplina de voto do Sócrates? De que camandro tem o homem medo? Se enfrentou o Salazar porque não enfrenta um PS cujo S já ninguém conhece o sentido? Será que tem medo do desemprego? Tem medo de perder os amigos? Tem medo de não ter microfones à volta dele sempre que diz ai, tou zangadito, tava capaz de fazer e acontecer…?

Não compreendo, não aceito, incomoda-me que alguém com a fama de desalinhado que Alegre cultiva não perceba que era bom não se deitar na cama. Das duas uma, ou o PS é uma choldra ou não é. Se é, o homem deve falar e formar um partido novo, refundar um velho, juntar-se humildemente a um que já exista, ou qualquer coisa assim. Se não é, ou se Alegre não tem coragem, então mais vale estar calado.

Não é por nada, mas assim parece o portuguesinho típico na sua conversa de café: “eles” são isto e são aquilo, ai se eu pudesse, segurem-me se não bato-lhe e coisa e tal. E não é isto que se espera de uma reserva moral. Não é – sobretudo na semana em que se celebram os 35 anos do 25 de Abril e em que apetece dizer, com Salgueiro Maia: “Há diversas modalidades de Estado: os estados socialistas, os estados corporativos e o estado a que isto chegou!”

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