Parece-me que os nossos políticos estão a bater no fundo, com esta história do Provedor de Justiça.
Já não bastavam os escândalos de corrupção que têm rebentado uns em cima dos outros nos últimos tempos (Freeport, BPN, Cova da Beira, fora o resto) e que envolvem nomes associados ao poder político, fazendo-nos achar que a democracia serve apenas afinal para permitir a um bando de manhosos sem escrúpulos e sem vergonha agirem de forma imoral em nome do povo contra o bem comum.
Que não serão todos más reses, pensamos, e lá vamos indo votar, com a esperança na ponta da esferográfica. Mas esta história do Provedor… faz pensar. O que raio estará em jogo aqui ? Se os nossos deputados não confiam uns nos outros para se entenderem sobre este tão singelo assunto, poderemos nós confiar neles no momento do voto? Esta questiúncula só serve para vermos, claramente visto, que os interesses que os movem não são os dos cidadãos em nome dos quais governam mas antes os seus próprios obscuros interesses.
Não será, portanto, de surpreender que a abstenção aumente cada vez mais como sinal da nossa falta de confiança nos candidatos a deputados. De surpreender será que esses senhores (e algumas, poucas, senhoras) se estejam despudoradamente nas tintas para o que nós pensamos deles.
Apesar disso, o voto continua a ser a nossa única arma e é nosso dever usá-la de modo certeiro.

11 comments
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04/06/2009 às 12:46
Paulo J. Mendes
Concordo com tudo o que escreves, Esteva.
A juntar a tudo isto, uma campanha eleitoral que tem sido uma autêntica vergonha. Ideias, zero. Tricas e insultos, quanto baste, como se as pessoas quisessem saber disso para alguma coisa: É preciso ter perdido a noção.
De hoje a oito dias, ainda estarão os diversos canais de televisão a “encher chouriço” com debates sobre a abstenção, o “afastamento dos cidadãos da política”, etc, etc…
No Domingo faço questão de comparecer… Não sei é se a esferográfica da mesa de voto ficará com menos tinta depois de ter passado por lá, e não será por ter usado a minha. Não merecem mais que isso.
04/06/2009 às 15:26
pilantra
Nisto de votar, sou muito clara e estável: voto sempre em quem não está no poder. E se um dia aqueles que prefiro estiverem no poder, farei exactamente o mesmo: nunca votarei neles.
Já tive a maioria cavaquista que a única coisa gira que teve foi o cavaco a comer o bolo-rei.
Já tive a maioria católica do guterres que descobriu a alma num espermatozóide e deu à sola com o susto.
Já tenho a maioria dos pirosos analfabetos, que lá por terem dado a cara para o aborto julgam que tudo se lhes deve.
Já tenho a santa da maioria que faltou ao parlamento para não reconhecerem o direito ao casamento dos homossexuais.
Estou cheia de maiorias.
Que se lixe a taça que é de papelão: daqui nem pó
04/06/2009 às 16:04
Berta
Para a Pilantra,
Quem vota está a sufragar um programa de governação e não um programa de oposição. Um partido só se torna da oposição se não ganhar. Quando votamos num partido gostávamos que ele ganhasse pois era a única forma de ver o programa que sufragamos ser aplicado na prática (isso, claro está, na mais optimista das situações). Se o partido votado não ganhar mas estiver ainda assim representado na assembleia, sentimos que a nossa posição está lá. Não ganhamos mas apresentamos propostas e trazemos temas para a discussão. Há propostas de partidos minoritários que às vezes são aprovadas, por isso vale a pena ir votar mesmo que o nossa partido não ganhe. A democracia é representativa, isso é que interessa. Agora, ir votar em alguém para que este não seja eleito parece-me algo um pouco estranho. Eras capaz de votar no PNR só para ser espalha brasas?
04/06/2009 às 23:02
Sérgio
loira,
para quem ainda tem dúvidas, e não só, pode ir aqui e ver do que é feito(a):
http://euprofiler.eu
04/06/2009 às 23:43
pilantra
Berta
disse pnr? esse não conheço nem reconheço nem entra naquilo a que chamo partidos.
Para mim, no actual quadro, há cinco partidos – considerando a CDU um partido e o Bloco outro. E é dentro desse quadro que eu faço a minha cruz – digo bem: a minha cruz. É a tradição judaico-cristã a falar.
Mas digo mais: como nunca votarei no CDS nem no PSD, tirada a prova dos nove, só tenho três opções. Ora há uma que não vai ser: a socrática. Portanto… pardais ao ninho.
Há ainda outra coisa: é que não espero nada de quem quer que seja. Mas não vou deixar o meu voto entregue à bicharada: voto eu, que é mais seguro.
Quanto a essa das propostas etc. e tal – é outro choradinho das matracas do parlapié: o PS nesta legislatura vezes sem conta recusou propostas a que depois fez alterações de estilo e aprovou sozinho. Foram umas conversas muito edificantes mas eu já não estou para tanta hagiografia. Vou lá e voto no BE ou na CDU e vou para a praia. Votar na CDU é sempre porreiro que os outros ficam danados – passam a vida a rezar-lhes a missa de corpo presente e os tipos na missa do sétimo dia piscam o olho e dizem «afinal ainda não foi desta!». Dá cá um gozo! lol
A Democracia pode ser representativa, lá isso pode. Mas aqui isso não existe. Nem democracia nem representatividade. Isso só podia existir se houvesse projecto e se fosse cumprido. Mas não há: há presumiveis textos de presumíveis politicos sobre presumíveis presunções a bons negócios e empregos.
Uns miseráveis que andaram a dizer que um aumento de 25 euros no ordenado mínimo arruinava o país e passados meses desfazem-se em milhares de milhões para os compadres não falirem! E os desempregados não estão falidos? E os velhos com reformas de 240 euros não estão falidos? Mas essa malta está habituada a passar fome, não estranha. Os senhores é que não estão habituados, coitados!
05/06/2009 às 08:49
Berta
Pilantra,
Do teu primeiro comentário fiquei com a ideia de que não votas em quem está no poder, mas sim quem está na oposição. É uma postura tão digna como qualquer outra, mas pouco ambiociosa porque quem vota deseja ver um programa ser posto na prática (isso é a minha opinião). Pode ser que a democracia esteja muito distante de toda esta simplicidade e veja-se por exemplo o caso do provedor de justiça que não prestigiou em nada o parlamento. Ainda assim, as regras do jogo são estas e se não é para serem seguidas mais vale não ir votar. Do teu segundo comentário (resposta ao meu) fiquei desta vez mais esclarecida e com a ideia de que és de esquerda e que votas no BE ou CDU. Isso é mais contrutivo, porque significas que te revês nas propostas destes partidos e os apoias com o teu voto. Agora faço-te uma pergunta: o que achas de algum destes partidos (ou os dois) se coligar com o PS depois das eleições (estou a referir-me às legislativas não às europeias)?
05/06/2009 às 15:42
pilantra
lol voto no que não se coligar! Ou voto nulo – em último caso!
Estou convencida que uma coligação PS+ BE+CDU é a verdadeira quadratura do circulo – até com um presidente da república especialmente inventado e formatado para o «evento», quando mais com o Cavaco.
Se BE+CDU ganhassem, por certo viriam abaixo os restos do carmo mais da trindade, a que se juntariam as almas penadas de santa engrácia mais conhecidas por Panteão Nacional. E até o Fernando Pessoa fugiria em cuecas dos jerónimos gritando acudam que vem aí o quinto império!
Coligações do Ps com o BE ou CDU não são possíveis. Os partidos minoritários seriam cilindrados pelo poder e pelo big brother : tudo quanto de bom (ou de mau) fizessem seria projectado no big – donde, incorreriam numa espécie de auto aniquilamento. O que seria nefasto para o seu natural desejo de crescimento.
Nem o Sócrates estaria interessado nisso – ainda que o venha a dizer. Com ligeiro trocadilho ao Zé Mario Branco eu cantarei: o poder é uma arma/ para quem o tem na mão… O que significa que tanto faz estar lá como não estar: só se fará o que o big/ps/sócrates quiser. Então, BE/CDU vão para lá fazer o quê? Iso é a representatividade dos seus eleitores?
Se Sócrates estivesse interessado ou soubesse ouvir os outros tê-lo-ia feito nestes quatro anos que passaram. Não são necessárias coligações para acordar pontualmente estratégias.
A Educação, a Saúde e a Justiça – bens essenciais num país pobre e saqueado como o nosso – são exemplos cabais do entendimento de governo que Sócrates tem: a maioria sou eu, faça-se como eu quero. Ou seja: quero, posso, mando. Isto tem um nome – mas ainda lhe dou o beneficio da dúvida e não o rotulo já. E no entanto… oxalá não o venhamos a dizer demasiado tarde, como no poema do Brecht.
E, já agora, falaste num caso exemplar: o Provedor.
A cena é o retrato fiel da democracia que temos.
O Provedor é a última instância a que o povo pode recorrer. Como se viu, PS e PSD estiveram-se nas tintas para o cargo e para o homem.
Sendo conotado com o PSD, o seu partido não teve saber nem vontade para atender ao caso.
O PS sacrificou tudo para que fosse um dos seus. Não conseguiu, portanto não há.
O que interessa que o povo não tenha provedor? Nada! Existir só dá chatices ao governo!
Que lhes interessou que o homem já tivesse cumprido dois mandatos, que estivesse há onze meses à espera que resolvessem o assunto. que estivesse doente, que quisesse sair?
Nada!
Como antes não interessou ao Governo nem ao Ministério da Saúde os acidentados, os doentes crónicos, os velhos – até as grávidas, sendo isto um país de velhos!
Quem está no serviço público e não tem humanidade é porque só lá está em «serviço próprio»-privado. Todos eles.
Uma coisa é Portugal ser uma país pequeno, pobre e termos de aguentar.
Outra coisa é ser um país onde os milhares de milhões surgem, ninguém sabe como, sempre que alguém com milhões precisa de mais milhões. Que somos nós, os que não temos nem um milhar, que temos de pagar. Por isso os pobres em Portugal já são tantos e todos os dias aumentam.
Governar é uma coisa séria e dificil. Não é coisa para trapaceiros, gabarolas e vigaristas. Ou corremos com eles ou… temos o que merecemos!
07/06/2009 às 18:44
Esteva
Olá a todos! Que animado isto tem andado!
Paulo, para mim é também, para já, inquestionável a necessidade do voto, não tanto pelo que eles merecem, mas pelo que merecemos nós, por quem merecemos ser representados. Por isso voto e não voto em branco. Escolho aqueles que têm uma visão do mundo mais parecida com a minha, independentemente de irem ou não ganhar alguma coisa que não seja uma grande desilusão.
Pilantra, como tu, nunca voto em quem está no poder, nem em quem vai estar, mas não é de propósito (tal como calculo que no seu caso também não seja), é que os tipos que ganham são sempre advogados da lei do Lampedusa – é preciso que algo mude para que tudo fique igual, e eu tenho pressa. Quero igualdade, liberdade e fraternidade já! E acredito que a melhor maneira não é ter uma maioria absoluta, é ter uma oposição que se norteie por estes (muito resumidos) princípios, que seja crítica, forte e sem medo dos resultados eleitorais, coisa que nunca acontece no centrão, que governa de olho nas sondagens. Por mim, este país seria muito melhor governado se os pequenos partidos tivessem assento parlamentar.
Berta, não te zangues comigo, mas vou pegar numa frase do teu comentário sobre as regras da democracia. Eu não sei se concordo que essas são as regras da democracia ou das eleições e mesmo que sejam não concordo que, se não as aceitarmos, não valha a pena ir votar. Eu voto para ter deputados na Assembleia da República que pensam como eu, não concordo que se tenha necessariamente de votar no governo. Aliás, até me parece que essa lógica acaba por ser perniciosa, a meu ver, pois conduz à extraordinária ideia do voto útil, levando muito boa gente a pensar que só faz sentido votar num de dois partidos que, no fundo, pouco diferem entre si, perpetuando-se os erros de ambos. Ou pode ainda levar muitos a não votar por sentir que aquele em quem votarão nunca chegará ao poder. Eu sou contra o voto útil e contra a abstenção, voto em quem está na oposição, porque é aí que estão as pessoas que pensam como eu e acredito que, quanto mais próximo do poder estão os partidos, menos interessantes são.
Beijos!
07/06/2009 às 18:48
Esteva
Sérgio,
já lá fui e o diagnóstico que fizeram à minha alma política foi certeiro. Sou oficialmente uma radical,
, e os partidos em quem poderia votar são todos minúsculos. Digo-te mais, parece que para votar no partido certo para mim teria de mudar de país!
07/06/2009 às 22:31
pilantra
E lá houve banhada de Rangel!
Eles dizem que o Rangel se revelou melhor que a amostra.
Eu acho outra coisa: ele tinha fama de ser um tipo que falava e deixava falar e via-se isso quando ele aparecia na TV; e nunca deixava de defender a sua opinião , não gozava o prato . E atribuiam-lhe seriedade. Eu acho que as pessoas votaram nele por essa aura de homem sério, competente e educado. As pessoas já não têm pachorra para a galinhadas e outros cacarejos politivos na TV.
A chatice é que outubro já aí está e vamos lá ver se vão votar.
Mas não queria nada passar ao outro lado da lua. Queria sol – mas o s.pedro não ajuda! Estou farta de centrão e compadres.
09/06/2009 às 12:21
Berta
Assim como não acho que as eleições não servem só para escolher o governo também não acho que só sirvam para escolher a oposição. Pessoalmente, gostava de ver o Bloco coligado com o PS nas próximas legislativas. Se tal não acontecer, terei pena porque não gosto e ficar eternamente na oposição. Acho que numa altura de crise, os partidos que partilham de um mesmo ideário deviam era unir-se. O PS está demasiado dominado pela ideologia do mercado? É verdade, mas também pode voltar-se para a social democracia que é aquilo que o seu eleitorado está à espera. Espero que se tirem as devidas ilações das eleições.
Abraço.